Nem chegada.

Nem  partida.

O momento inquieto

entre um passo e outro,

Quando o pé ainda não tocou o chão,

mas já não está mais onde estava.

É desconfortável.

Silencioso, e misteriosamente  não tem nome, nem forma.

E, ainda assim, grita e incomoda.

Se faz sentir na pele

No corpo.

Como roupas antigas as palavras que antes serviam, agora apertam.

O que era justo – ou na medida –  já não cabe mais onde se encaixava tão bem.

O que antes repousava em sono profundo, de forma inesperada, acorda!

Eis que se faz carne a descoberta.

Eureka!

A surpresa (ou susto) do  despertar  como reconhecimento de que algo se moveu.

O olhar atônito para vultos se clarificando.

É travessia.

É rito.

É a alma trocando de pele por dentro.

O vestir-se do avesso na maravilhosa e surpreende confusão do fora e dentro.

Um novo sentido ao antes tão confortável caminhar …

Não é chegada.

É o eco do primeiro passo…

num desconhecido chão que ainda está nascendo.

✧ Para quem caminha com Lacan, talvez reconheça aqui algo do sujeito em intervalo — aquele que se move e se apresenta  entre significantes, antes mesmo de saber que se move. (Ver: Lacan, Seminário 11 — Abertura)

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